PRIMA MATÉRIA

de Daisy Xavier

Substância caótica e sem forma que contém toda potência de transformação.

Essa definição retirada da alquimia é um bom ponto de partida para pensarmos o que seja o inconsciente. Esses desenhos e pinturas recentes são resultantes de uma transformação alquímica desde sempre buscada: Trazer para ARTE uma poética do INCONSCIENTE.

Arte e psicanálise fervem no mesmo caldeirão.

Em algumas dessas pinturas precisamos nos aproximar um pouco mais: Linhas muito finas e imperceptíveis se bifurcam sem descanso e quando percebidas desvelam devaneios inesperados. Percorrem a tela tentando conectar todos os elementos presentes, preenchem todos os vazios até nos fazer pensar em um espaço homogêneo. As cores também buscam esse campo uniforme: Se misturam e se sobrepõem. Confundem o olhar. Inofensivas transparências invadem os limites, dissolvendo as formas e anulando as demarcações do espaço. Passeamos pela tela sem garantias de um caminho certo a percorrer.

Em outras pinturas as linhas infinitas se apresentam através de formas longilíneas. Se esticam com tal empenho para ir além dos limites da tela que não se pode dizer se são leves ou pesadas, apenas nos levam numa viagem de fuga num vetor ascendente. Se dirigem ao topo da tela como se quisessem sair dela, como se quisessem evaporar num espaço abstrato. Quem sabe, se dissolver num movimento sublimatório.

Algumas imagens ainda respiram os recursos da alquimia. Folhas desidratadas, plantas venenosas, estranhos insetos, protozoários, etc. Mas o que realmente importa é que esses ingredientes sejam cozinhados no calor do pensamento disforme e transformador do Inconsciente com a lúcida loucura do ato de pintar.