FALEMOS DE ARQUITETURA

Agnaldo Farias — FAUDUSP

Falemos de arquitetura porque ela é a nossa paisagem, nossa verdadeira natureza, a menos que consideremos naturais os jardins, parques, as imensas áreas a serviço das monoculturas e as sobras intocadas do planeta que assistimos em O mundo de visto de cima enquanto almoçamos. Falemos da arquitetura porque ela é indissociável das cidades, ela é sua unidade mínima e dela emana o esforço em organizar os territórios, e isso muito antes dos conquistadores europeus estenderem as malhas geométricas sobre a América, inspirados por Hipódamo de Mileto, o pai dos traçados urbanos em quadrículas ou, como ficaria conhecido mais tarde, traçado hipodâmico. Seu estudo para o Porto do Pireu, em Atenas, datado de 451 a.C., é o ponto de partida de uma lógica implacável, pretensamente previsível, não esbarrasse, como sempre acontece, em imprevistos, como os quebra-cabeças de Edgar Racy, as composições baseadas em elementos geométricos básicos, o quadrado, o circulo e o losango, não por acaso os que integram a bandeira nacional. Desgarrados da ordem que emolduram o progresso, os elementos tentam inutilmente se encaixar, mas vão se sobrepondo, avançando uns sobre os outros porque nada é estável, especialmente numa cidade como a nossa, que hoje amanheceu com o anúncio orgulhoso da construção de uma torre de vidro prevista para ser a mais alta da cidade. Até quando? Até o final da semana nascerá outra torre e assim será até que tudo se desmorone.

Esta é uma exposição dedicada a pensar trabalhos que traduzem, incorporam, direta e indiretamente, a arquitetura. Quase todos os artistas pertencem ao elenco da Galeria Eduardo Fernandes, e suas obras estão distribuídas em suas duas sedes: a da Rua Harmonia e a da Medeiros de Albuquerque.

Na sede da Medeiros estão as duas esculturas de ferro José Carlos Vilar, o mestre capixaba. Uma delas, a que recebe o visitante, remete ao desejo ancestral de se construir torres, impulso de marcar nossa presença a partir de construções simbólicas enormes e que recua até o período Neolítico, às pedras gigantescas de Stonehenge e Ilha de Páscoa, para desembocar nos singelos tijolos colocados um sobre o outro. A segunda peça é feita de vergalhões, desenho feito de ferro que perfaz a estrutura óssea de tudo quanto é construção. A peça de Daisy Xavier espalha-se tentacularmente pela parede, malha fina e frágil composta de polígonos confeccionados com arames delicados. Irradia-se em deformações às quais se somam, além de sombras tênues, pequenas placas metálicas amassadas. A geometria proposta vê-se comprometida por ações invisíveis, responsáveis por transformá-la numa composição às voltas com escombros.

Ao seu lado, suspensa desde o forro, a obra de Heloisa Crocco cujo título, Brise pendurado, alude diretamente ao quebra-sol, amplamente empregado pelos nossos modernos, adaptando aos trópicos os preceitos da nova arquitetura. Mas a obra de Heloisa, com sua urdidura de fragmentos regulares de tijolos e ferro, ultrapassa esse sentido: remete à tapeçaria, à lembrança de que a arquitetura nasce da demarcação de uma área protetiva pela construção de um cintamento feito de fibras vegetais com barro -como a taipa de mão. Juntar tijolo com ferro é um modo de evocar essa tradição e pensar a arquitetura como entrelaçamento de materiais, técnicas e tempos.

Na parede oposta, em contraposição a trabalhos nos quais os materiais falam alto, vêm as fotografias de Penna Prearo, o artista que aproximou a fotografia da pintura. Debruçando-se sobre algumas de nossas cidades demonstrou como sua solidez desfaz-se em imagens de cores ácidas, não apenas cromaticamente alteradas mas tremidas, inconclusas, repetidas, cenas que resistem a desaparecer. Não há unidade possível, elas advertem; vivendo sob um tsunami diário de imagens, o que até outro dia chamávamos de realidade esfacela-se, fundindo-se à imaginação e ao delírio.

Na sequência das três fotos de Penna, dialogando diretamente com elas, chega-nos a instalação de Gustavo Prata, verdadeira infestação de fragmentos de embalagens, nuvem de produtos gráficos relacionados com bens de consumos de toda sorte, de brinquedos a remédios, elaborados com cores e logotipos aliciantes, projetados para capturar nossos desejos, irrompendo no canto da sala por fissuras imperceptíveis. Apesar da multiplicação de cuidados dirigidos a mitigação dos nossos temores, mantemo-nos vulneráveis. A pandemia foi só um passo mais visível. A julgar pelo modo como a obra de Gustavo se espalha pelo chão e paredes, e é evidente que logo chegará ao forro, a captura dos nossos corpos será iminente.

Entre a obra de Gustavo e a de Heloisa está a de Roberto Mícole. Sua obra figura entre aquelas que vão mais longe na natureza processual de seu trabalho. Feita de tecido e costurada à mão com segurança e rigor diferenciados, ela ostenta um certo inacabamento. Pontas das linhas pendem para fora, as áreas demarcadas estão à espera de preenchimento que talvez ainda vá acontecer. Há pequenos objetos e pinturas, presenças discretas e significativas, como é comum a esse artista que preza os detalhes. O resultado, tanto nesta peça como a outra, ainda maior, em exposição na rua Harmonia, faz jus a um artista que se alimenta de várias tradições, que não se prende a uma única tendência porque se percebe como uma espécie de entroncamento de culturas distintas.

Na sede da rua Harmonia somos recebidos pelas pinturas de Edgar Racy, já comentadas. Em frente a ela a engrenagem de autoria de Artur Lescher. Uma esteira metálica projeta-se da parede rolando por meio de cilindros. Artur bate na tecla da voragem mecânica do mundo que inventamos viver, a compulsão por sistemas e ritmos regulares, precisos, impecavelmente bem feitos e eficientes. Eficientes? Verdade? Por trás das aparências de suas peças, do modo como se as associa com habilidade e competência há um fecundo exercício de ironia: estão a serviço da brincadeira e das delicias de uma poética que celebra o livre fazer.

Ao seu lado, a escultura Mapeamento, um díptico de ferro de Ana Amélia Genioli, cujos volteios e circunvoluções, têm a leveza de um desenho riscado no ar. Nessa peça Ana Amélia ressoa armações de formas de concreto. Estrategicamente colocada à direita de quem entra na galeria, Mapeamento traz círculos que se juntam e se afastam conforme o movimento do visitante e sobrepõem as elipses de suas sombras fabricadas pela iluminação que incide sobre ela. O olho desliza sobre o corpo linear do primeiro círculo mas não naquele perpendicular a parede: sua pintura preto e branco impõe descontinuidade na rota do olhar. O segundo trabalho de Heloisa Crocco fecha a primeira sala. Se o primeiro tinha referências com a arquitetura e a tecelagem, esse mantém os mesmos vínculos mas de modo distinto. Em lugar do barro e ferro, madeira, bloquinhos de seção quadrada com colorações variadas, cortados em chanfro, colados uns aos outros perpendiculares a parede. Relevo apinhado, algo que transita entre mosaico e renda que se percebe em dois tempos. De longe uma vista aérea de uma cidade de ar pré-colombiano, de perto um jogo a um só tempo agitado e contido.

Na sala seguinte somos saudados por um grande tecido de Roberto Mícole, da mesma série do trabalho apresentado na sala da Medeiros de Albuquerque. Guilherme Dable, na sequência de Mícole, principiou pelo som, mais precisamente realizando trabalhos que trafegavam entre as artes visuais e a música, incorporando, nesta, aquilo que habitualmente é chamado de ruído, sons indesejáveis, não tonais. O interesse por aquilo que corre por fora é uma das tônicas desse artista. O conjunto de pequenas pinturas trazidas para essa exposição, são também desenhos, têm imprecisões e gestos decididos. Interessam por aquilo que sugerem mas não explicitam. São uma pletora de sentidos, como as cidades, são carregados de ruídos e menções a coisas efêmeras, que foram trocadas por outras que em breve também desaparecerão.

Agradecemos a visita.

Galeria Eduardo Fernandes